V Domingo do Tempo Comum - Ano A

09-02-2020 08:58



“Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?” Mt 5, 13

 

Não gosto de coisas insonsas. E muito menos de pessoas sonsas. E até porque o sal pode ser substituído por imensas ervas aromáticas, por especiarias inebriantes, quando não mesmo por um “piri-piri” ardente, o sabor da comida mistura-se com o sabor da vida. Precisamos que a vida tenha sabor, e entendo que, às vezes, somos nós que o damos e, principalmente, o descobrimos, se não desistimos de o procurar. Encanta-me a incarnação de Cristo que não deixou de parte nenhum dos nossos sentidos. Ele que viu e se deixou ver, ouviu e fez-se ouvir, saboreou e deu a saborear, cheirou e foi cheirado, tocou e foi tocado.

O sal e a luz que Jesus diz sermos todos, surge imediatamente a seguir às Bem-aventuranças no discurso da montanha, em S. Mateus. De algum modo estão a elas ligadas, pois se as vivemos autenticamente tudo tem mais sabor e mais luz. Há aqui uma proposta de re-criação, de uma vida que pode ser nova e é condição para a felicidade inesperada. Habituados a “felicidades” egoístas e insonsas, estaremos dispostos a arriscar um salto qualitativo na relação com Deus, com os outros e com o mundo?

Sabemos que o sal conserva e dá sabor. Dá nome ao fruto do trabalho humano que se utiliza para comprar e vender. Serviu para assinalar alianças de sal na Bíblia (Nm 18, 19; 2 Cr 13, 5) exprimindo lealdade e fidelidade. Jesus diz que ele tem uma força que não pode perder-se, sob o risco de ser deitado fora e pisado. Trata-se do “sabor” de viver como Ele. É a vida saborosa, não certamente fácil, dos que vivem como e com Ele a filiação e a fraternidade. Mas é possível os discípulos serem mesmo “sal da terra”?

E que dizer da luz? Primeira obra da criação. O nascimento de uma vida diz-se “dar à luz”. Uma ideia, uma invenção, uma descoberta é também “trazer luz ou trazer à luz”! Ao Baptismo chamam os nossos irmãos orientais “Iluminação”. Ainda que a vida precise desta alternância de luz e escuridão que o sol e a rotação da terra nos proporcionam, ser “luz do mundo” é um campo imenso de responsabilidade. 

Uma fé sem sabor nem luz não é fé cristã. É uma anti-fé, dedicada a amargar a vida e a esconder o que é belo, quantas vezes criando imagens azedas e obscurecidas de Deus. Os discípulos de Jesus recebem a missão de dar o sabor da humanidade e o gosto de Deus em cada tempo. Onde a imagem de Deus é desfigurada e Deus separado do homem é preciso ser sal e luz em abundância. Sem perigo de “tensões altas” nem de “luz a mais”, pois o sabor e o saber do amor de Deus não são para esconder!

Pe. Vitor Gonçalves

in Voz da Verdade

 

A Palavra de Deus deste 5º Domingo do Tempo Comum convida-nos a reflectir sobre o compromisso cristão. Aqueles que foram interpelados pelo desafio do "Reino" não podem remeter-se a uma vida cómoda e instalada, nem refugiar-se numa religião ritual e feita de gestos vazios; mas têm de viver de tal forma comprometidos com a transformação do mundo que se tornem uma luz que brilha na noite do mundo e que aponta no sentido desse mundo de plenitude que Deus prometeu aos homens - o mundo do "Reino".

  • No Evangelho, Jesus exorta os seus discípulos a não se instalarem na mediocridade, no comodismo, no "deixa andar"; e pede-lhes que sejam o sal que dá sabor ao mundo e que testemunha a perenidade e a eternidade do projecto salvador de Deus; também os exorta a serem uma luz que aponta no sentido das realidades eternas, que vence a escuridão do sofrimento, do egoísmo, do medo e que conduz ao encontro de um "Reino" de liberdade e de esperança.
  • A primeira leitura apresenta as condições necessárias para "ser luz": é uma "luz" que ilumina o mundo, não quem cumpre ritos religiosos estéreis e vazios, mas quem se compromete verdadeiramente com a justiça, com a paz, com a partilha, com a fraternidade. A verdadeira religião não se fundamenta numa relação "platónica" com Deus, mas num compromisso concreto que leva o homem a ser um sinal vivo do amor de Deus no meio dos seus irmãos.
  • A segunda leitura avisa que ser "luz" não é colocar a sua esperança de salvação em esquemas humanos de sabedoria, mas é identificar-se com Cristo e interiorizar a "loucura da cruz" que é dom da vida. Pode-se esperar uma revelação da salvação no escândalo de um Deus que morre na cruz? Sim. É na fragilidade e na debilidade que Deus Se manifesta: o exemplo de Paulo - um homem frágil e pouco brilhante - demonstra-o. 

Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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